Em tempos perturbadores, esperançar é fundamental

Conferência internacional reúne pesquisadores que debatem o papel das tecnologias na rotina e na saúde das pessoas e defendem que é preciso reagir aos apelos das big techs

Pela primeira vez, o Brasil sedia a Conferência Internacional de Comunicação e Tecnologias Aplicadas (ICOMTA). Realizada em João Pessoa, no período de 8 a 10 de setembro, a 6ª edição da conferência reuniu centenas de pesquisadores europeus, canadense e de países da América do Sul em um debate sobre temas emergentes, como o uso da inteligência artificial e de sistemas e tecnologias de inovação. O LabECoS-UnB marcou presença no evento com a apresentação “Entre modelos ditados pelas big techs e reações da sociedade”, uma coautoria da pós-doutoranda Ana Lúcia Medeiros com as professoras e pesquisadoras Valéria Mendonça e Natália Fernandes. O trabalho faz uma análise dos desafios para a saúde pública no Brasil a partir do possível impacto das big techs na saúde mental das pessoas. O trabalho traz dados de relatórios recentes que   colocam o país no topo do ranking das nações com os piores indicadores de casos de pessoas com transtornos mentais provocados pelo uso excessivo de tecnologias. Um problema que se intensificou com o vício em jogos digitais (Bets), impulsionado por influenciadores digitais durante a Copa Mundial 2026. 

As pesquisadoras apontam que, em contrapartida a esse “quadro perturbador”, citando André Lemos (2026), estão sendo adotadas inciativas em três frentes: políticas púbicas, pesquisas científicas e estreitamento dos laços governamentais com a sociedade civil organizada, aspecto destacado por Valéria Mendonça, uma das autoras do trabalho, como mostra o primeiro slide da apresentação, reproduzido a seguir: “O Estado reconhece o ambiente informacional como um determinante social da saúde, destacando a relevância da reconstrução das pontes de confiança entre a ciência e o cidadão”. 

Primeiro slide da apresentação do LabECoS no evento

Na palestra inaugural do ICOMTA, a uruguaia Maria Del Carmen Rico, professora associada na Université du Québec à Montréal (Canadá), apontou desafios éticos e epistemológicos com o uso da IA Generativa (e as inúmeras possibilidades de produção de imagens e conteúdo da ferramenta), lembrando que “IAs são máquinas, enquanto nós somos humanos, e a saúde mental precisa ser preservada”. Em sintonia com as atividades desenvolvidas no LabECoS-UnB, de quem é parceira nos estudos sobre a intersecção dos campos da comunicação e da saúde, a conferencista destacou que o repertório linguístico limitado da Inteligência Artificial reduz a capacidade humana de pensar e tem potencial de atrofia da memória e do pensamento. 

Maria Del Carmem Rico, conferencista na abertura do ICOMTA 2026 – Foto divulgação

Um olhar crítico sobre as tecnologias da Informação

Para centenas de participantes presenciais e virtuais, atentos à questão das tecnologias da informação e às transformações que se observam na contemporaneidade, o professor da Universidade de Santiago de Compostela, Miguel Túñez, encerrou a ICOMTA 2026 com uma manifestação da necessidade de as pessoas procurarem desenvolver uma percepção crítica sobre o contexto no qual as tecnologias moldam comportamentos. E, como recorte da situação, em sintonia com Maria Del Carmem Rico, ele traz uma preocupação central: a relação que se estabelece entre a Inteligência Artificial e o cérebro humano. “É fundamental ter como objetivo comum garantir a saúde mental e a dignidade humana”, defende. Para o pesquisador, a intersecção científica se faz necessária na aplicação dos Neurodireitos como forma de proteção das pessoas sob várias perspectivas: falsa empatia do ChatGPT, cujos conteúdos não têm interatividade – a ferramenta responde o que tem disponível e o repertório linguístico limitado reduz a capacidade de pensar; comunicação assertiva encapsulada – respostas prontas e estruturadas a partir do próprio repertório; estratégias de fidelização por interesse econômico;  riscos de segurança que a ferramenta oferece, inclusive no que diz respeito à vigilância que as tecnologias exercem sobre a rotina das pessoas (onde estamos, o que fazemos). 

Miguel Túñez – Foto arquivo pessoal

O debate realizado no Brasil sobre comunicação e tecnologias aplicadas aponta para a necessidade de uma mudança qualitativa entre o humano e a tecnologia, a começar pelo reconhecimento do direito de pensar diferente, valorizando a singularidade humana, o contexto social, a saúde e o ambiente. Essas iniciativas existem e estão postas, como mostram os trabalhos apresentados na conferência.

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