De quem é o conhecimento produzido nas universidades? Valéria Mendonça debate linguagem simples e democratização da ciência

Em palestra na UNEMAT, coordenadora do Laboratório ECoS/UnB destacou a importância de traduzir o conhecimento científico sem abrir mão do rigor, aproximando a pesquisa da sociedade

De quem é o conhecimento produzido nas universidades? A pergunta abriu a palestra da professora Valéria Mendonça, coordenadora do Laboratório de Educação, Informação e Comunicação em Saúde (ECoS), da Universidade de Brasília (UnB), durante a VI Semana Acadêmica de Pesquisa e Inovação, da Universidade do Estado de Mato Grosso, realizada nesta quarta-feira (4).
Ao abordar o tema “Divulgação científica em linguagem simples como estratégia de comunicação”, Valéria propôs uma reflexão sobre a responsabilidade social das universidades na circulação do conhecimento. Se a sociedade financia a pesquisa, participa de sua realização, compartilha dados e experiências e convive com os problemas investigados, por que tantas vezes recebe como devolutiva apenas um artigo científico que não consegue compreender?
A partir dessa provocação, a professora discutiu o ciclo social da pesquisa e os caminhos percorridos pelo conhecimento desde sua produção até sua chegada à sociedade. Para ela, comunicar ciência em linguagem simples não significa abandonar o rigor científico, mas fazer escolhas que favoreçam a compreensão e o acesso à informação.
“Linguagem simples não significa linguagem simplista”, destacou Valéria, ao chamar a atenção para a diferença entre simplificar o conteúdo e organizar a informação para torná-la compreensível. O rigor científico, a ética e a transparência devem acompanhar todo o processo. Nesse sentido, priorizar o essencial, estruturar as ideias e considerar quem receberá a mensagem são decisões fundamentais.
A professora também ressaltou que traduzir o conhecimento científico não é simplesmente resumir uma pesquisa. É contextualizar suas descobertas, aproximar conceitos da realidade dos diferentes públicos e criar condições para que a informação possa ser compreendida e utilizada.

Da pesquisa sobre as pessoas à pesquisa com as pessoas
Outro ponto abordado foi a relação entre ciência e cidadania. Valéria chamou a atenção para a necessidade de avançar de um modelo de pesquisa sobre as pessoas para práticas de pesquisa com as pessoas, reconhecendo a participação social não apenas como fonte de informações, mas como parte da construção do conhecimento.
Essa perspectiva amplia o entendimento sobre a democratização da ciência: não basta disponibilizar resultados; é preciso estabelecer relações de diálogo, reconhecer diferentes experiências e permitir que o conhecimento circule entre a universidade e a sociedade.
A discussão também alcançou o enfrentamento à desinformação. Para Valéria, quando a ciência deixa um vazio de comunicação, outras narrativas passam a ocupá-la. Por isso, combater a desinformação não se resume a identificar e corrigir informações falsas. É necessário tornar o conhecimento confiável, acessível, compreensível e compartilhável, fortalecendo sua presença nos espaços de debate público.

Inteligência artificial: apoio à criação, não substituição da reflexão
A palestra também trouxe para o debate o uso da inteligência artificial na comunicação e na produção científica. Valéria reconheceu as possibilidades oferecidas pelas ferramentas de IA, que podem auxiliar na elaboração de resumos, na sugestão de roteiros e na produção de diferentes versões de um conteúdo.
Entretanto, chamou a atenção para uma distinção importante: cocriação não é o mesmo que automação. O uso dessas ferramentas exige reflexão sobre aspectos que não podem ser tratados como meras operações técnicas: a IA sabe para quem estamos falando? Reconhece o contexto cultural do público? Consegue validar a fidelidade científica das informações?
As questões reforçam a importância da mediação humana, da responsabilidade de quem produz e divulga ciência e da avaliação crítica dos conteúdos gerados por inteligência artificial.
Ao longo da apresentação, a professora articulou desafios que atravessam a produção e a circulação do conhecimento científico. A linguagem simples, nesse contexto, não é apenas uma técnica de redação, mas uma escolha ética e uma estratégia de aproximação entre universidade e sociedade.
A participação de Valéria Mendonça na VI SAPI reafirma a importância de discutir a comunicação como parte do próprio compromisso social da ciência: produzir conhecimento é fundamental, mas criar condições para que ele seja compreendido, compartilhado e apropriado pela população também é responsabilidade da universidade.

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