Publicado na revista Saberes Plurais, artigo aponta a urgência de desenvolver competências críticas nas equipes do SUS para enfrentar a desinformação no território
Estar com o celular na mão e conectado à rede ao longo de todo o dia não significa, necessariamente, saber separar o joio do trigo quando o assunto é saúde na internet. Essa é uma das reflexões centrais do artigo “Letramento digital em saúde dos profissionais da Atenção Primária: acesso e padrões de uso da internet”, publicado na revista Saberes Plurais – Educação na Saúde, periódico da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
O estudo lança um olhar atento sobre o acesso à internet, os hábitos digitais e as competências percebidas por profissionais da Atenção Primária à Saúde (APS) para localizar, avaliar e utilizar conteúdos online. Mais do que medir conexões, o trabalho joga luz sobre os desafios contemporâneos de combater informações falsas, imprecisas ou abertamente enganosas no cotidiano dos serviços.
A publicação conta com a assinatura de Ana Valéria Machado Mendonça, professora da Universidade de Brasília (UnB) e coordenadora do Laboratório de Educação, Informação e Comunicação em Saúde (ECoS), e de Maria de Fátima de Sousa, professora associada do Laboratório e fundadora da Escola Cidadã. O artigo também é assinado pelas pesquisadoras Rosani Ramos Machado, Luiza Sheyla Evenni Porfírio Will Castro, Daniela Savi Geremia e Felipa Rafaela Amadigi.
Telas abertas, mas com pé no freio na hora de avaliar
Para compreender essa dinâmica na prática, os pesquisadores ouviram 141 profissionais da Atenção Primária no município de Biguaçu, em Santa Catarina. Os números revelam um cotidiano hiperconectado: 92,2% dos participantes possuem internet em casa e 84,4% apontam o smartphone como o principal dispositivo de navegação. A presença nas mídias sociais também é massiva, com 92,14% dos entrevistados relatando uso quase diário.
Quando convidados a avaliar as próprias habilidades digitais em uma escala de um a cinco pontos, os trabalhadores demonstraram alta confiança para buscar e aplicar informações: a facilidade para tirar dúvidas sobre saúde na rede e o uso de conteúdos para auxiliar no próprio cuidado alcançaram média de 4,2.
O cenário muda de figura quando a exigência é o filtro crítico. A capacidade percebida para avaliar a qualidade dos recursos de saúde disponíveis na internet caiu para 3,7. Já a segurança para utilizar o que se encontra online em tomadas de decisão na área da saúde registrou a menor pontuação do levantamento: 3,5.
“Existe um abismo entre estar habituado a navegar nas redes e ter a segurança necessária para filtrar criticamente o que circula ali. Reconhecer fontes confiáveis e saber quando aplicar uma informação digital são habilidades vitais para quem cuida da saúde da população, especialmente em tempos de intensa circulação de desinformação”, pontua a professora Valéria Machado.
Formação permanente para proteger o cotidiano do SUS
A pesquisa também identificou nuances importantes entre os perfis avaliados. Participantes com ensino superior apresentaram escores numericamente mais elevados. Na divisão por categorias, médicos e enfermeiros registraram médias superiores em diversas dimensões, enquanto agentes comunitários de saúde e profissionais da saúde bucal obtiveram marcas relativamente menores em aspectos ligados à avaliação crítica das informações.
O artigo faz questão de destacar que esses dados descritivos devem ser lidos com cautela: a pesquisa expressa a percepção individual dos participantes, sem testes estatísticos para inferir diferenças definitivas entre os grupos. No entanto, a discussão convida a olhar para as assimetrias de formação e para o papel estratégico de quem está na ponta, como os agentes comunitários de saúde, que convivem diariamente com as famílias e vivenciam de perto as dúvidas e boatos que chegam aos bairros.
“Enfrentar a desinformação no SUS exige ir muito além de ensinar os trabalhadores a manusear sistemas digitais ou baixar aplicativos. Precisamos de uma educação permanente que instigue a análise crítica de conteúdos, a checagem rigorosa de fontes e a compreensão de como as fake news se alastram no território”, defende a professora Fátima Sousa.
Entre os caminhos propostos pelo estudo estão abordagens formativas dinâmicas e práticas, como oficinas de checagem de notícias, simulações de aconselhamento, estudos de caso e análises guiadas de mensagens que circulam em aplicativos — debatendo temas sensíveis do cotidiano, a exemplo de vacinas, medicamentos, exames e tratamentos sem comprovação científica.
Saúde digital a favor da comunidade
Ao investigar o letramento digital na Atenção Primária, a publicação traz uma contribuição valiosa para os rumos da transformação digital no SUS. Afinal, a simples entrega de tecnologia aos serviços não basta se não for acompanhada do desenvolvimento de competências para que a informação seja compreendida, filtrada e aplicada com segurança.
Fortalecer o preparo crítico dos trabalhadores que atuam no diálogo direto com os usuários é o caminho para aproximar a ciência das realidades locais, consolidando redes de cuidado mais informadas e laços de confiança sólidos entre os serviços de saúde e a comunidade.
Acesse o artigo na íntegra: Letramento digital em saúde dos profissionais da Atenção Primária: acesso e padrões de uso da internet.
Revista Saberes Plurais – v. 10, n. 2 (jul./dez. 2026): Confira a edição.
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