Projeto da UnB leva educação menstrual a escolas públicas e já alcança mais de 250 meninas no DF

Iniciativa do Laboratório ECoS combina letramento em saúde, participação comunitária e acesso a políticas públicas para enfrentar tabus, desinformação e barreiras que podem afetar a permanência de meninas no ambiente escolar.

Vergonha de pedir um absorvente, medo de manchar a roupa durante a aula, dúvidas sobre as mudanças do próprio corpo e dificuldade para reconhecer quando uma cólica ou um sangramento exigem atendimento de saúde. Para muitas meninas, menstruar ainda significa lidar em silêncio com situações que ultrapassam o desconforto físico e podem interferir na frequência, na participação e na permanência na escola.
É nesse território de dúvidas, tabus e desigualdades que atua o Pro-LEME: Educação e Promoção de Letramento em Saúde Menstrual de Meninas e Mulheres nas Escolas do Distrito Federal. Desenvolvido pelo Laboratório de Educação, Informação e Comunicação em Saúde (LabECoS), da Universidade de Brasília (UnB), o projeto já alcançou mais de 250 meninas nas etapas mais recentes e aposta em uma estratégia que vai muito além da distribuição de absorventes: transformar informação em autonomia e aproximar as estudantes dos serviços e das políticas públicas de saúde.
Coordenado pela professora Valéria Mendonça, o Pro-LEME integra o Programa Escola Cidadã e conta com apoio de gestão da Fundação de Empreendimentos Científicos e Tecnológicos (Finatec), além de parcerias com a Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES/DF) e o Centro Universitário do Distrito Federal (UDF).

Informação para conhecer o próprio corpo
No centro da proposta está o letramento em saúde: a capacidade de compreender informações sobre o próprio organismo, identificar sinais que precisam de atenção profissional, conhecer possibilidades de manejo menstrual e tomar decisões mais conscientes sobre a própria saúde.
A proposta parte de uma constatação simples: entregar um produto resolve uma necessidade imediata, mas não necessariamente enfrenta as dúvidas e os tabus que cercam a menstruação.
Para Valéria Mendonça, o silêncio em torno do tema pode produzir consequências que ultrapassam a questão da higiene. Meninas podem deixar de frequentar as aulas por medo de vazamentos, constrangimentos ou bullying e também enfrentar sintomas que precisam ser investigados por profissionais de saúde.
“Não estamos falando apenas de baixas médias escolares ou dificuldades de conteúdo, mas de vulnerabilidade social, do organismo e da dignidade dessa mulher em constituição”, afirma a professora.
Por isso, o projeto procura abordar a menstruação sem transformar o encontro em uma aula exclusivamente médica. A linguagem é adaptada à faixa etária e às experiências das estudantes, com atividades participativas e recursos lúdicos.
Um dos exemplos é um útero gigante de feltro, produzido de forma colaborativa por estudantes da UnB e pelas próprias alunas das escolas públicas. Ao permitir que as meninas visualizem e manuseiem a anatomia do sistema reprodutivo, o recurso ajuda a tirar o corpo do campo do mistério e colocá-lo no campo do conhecimento.

Mais do que uma palestra
Outro diferencial do Pro-LEME é a continuidade. Em vez de concentrar a atuação em uma palestra ou em uma semana temática, a iniciativa procura construir uma relação permanente com as escolas, participando do planejamento pedagógico e adaptando as atividades às demandas identificadas pelas próprias comunidades escolares.
O trabalho também não é direcionado apenas às meninas. Meninos, professores, gestores e familiares são incluídos nas ações, ampliando o debate para além da sala de aula.
A estratégia reconhece que os tabus relacionados à menstruação não se formam apenas na escola. Eles também são reproduzidos dentro das famílias e nas relações sociais, o que torna a participação da comunidade fundamental para que a informação circule e permaneça.
“O trabalho com uma garota nunca é isolado. Ele alcança suas amigas, seus familiares e o próprio bairro”, explica Valéria. Segundo ela, momentos de convivência da comunidade escolar, como o Dia da Família, também são oportunidades para aproximar estudantes, familiares e universitários e criar espaços de diálogo sobre saúde menstrual.

Do conhecimento ao acesso a direitos
A atuação do Pro-LEME também procura transformar a informação recebida pelas estudantes em acesso efetivo a políticas públicas. Durante as ações nas escolas, as equipes utilizam notebooks para auxiliar as alunas no cadastramento necessário à retirada gratuita de absorventes nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs). A atividade permite que a estudante não apenas conheça a existência do direito, mas receba orientação para acessar o serviço.
Cada participante também recebe um kit educativo com uma bolsinha, um pacote de absorventes e uma caderneta personalizada para acompanhar o ciclo menstrual. A proposta conecta, assim, diferentes dimensões da saúde menstrual: conhecimento sobre o corpo, prevenção, autocuidado, acesso ao serviço público e garantia de direitos.
É também nesse contato direto com as escolas que a extensão universitária ganha outra dimensão. Estudantes de cursos da área da saúde dos campi Darcy Ribeiro e Ceilândia da UnB, além de universitários do UDF, participam das atividades e vivenciam situações que fazem parte da realidade do sistema de saúde no Distrito Federal.

Ciência que sai da universidade
Para a coordenadora do projeto, essa experiência também transforma a formação dos próprios universitários. Ao atuar diretamente com as estudantes e com as comunidades escolares, eles entram em contato com questões que dificilmente poderiam ser compreendidas apenas em sala de aula.
“Quando levamos nossos estudantes para realizar os cadastros e orientar essas garotas, estamos promovendo uma verdadeira ciência cidadã”, afirma Valéria Mendonça.
A experiência aproxima ensino, serviço e comunidade e contribui para formar profissionais mais atentos às dimensões sociais da saúde. Os estudantes que hoje participam das ações nas escolas serão, amanhã, profissionais que atuarão na rede de saúde do Distrito Federal.
O resultado é uma via de mão dupla: a universidade leva conhecimento, ferramentas e acesso a direitos para dentro das escolas, enquanto a realidade das comunidades também retorna para a universidade e ajuda a formar profissionais mais preparados para lidar com ela.
Ao tratar a menstruação como uma questão de saúde, educação e cidadania, o Pro-LEME amplia o debate para além do absorvente. A proposta é criar condições para que meninas conheçam o próprio corpo, reconheçam suas necessidades, saibam onde buscar ajuda e possam viver a experiência escolar sem que um processo natural do organismo se transforme em motivo de vergonha, silêncio ou afastamento.

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