Em uma rodada exclusiva de entrevistas concedidas ao Observatório de Análise Política em Saúde (OAPS), a Secretaria de Informação e Saúde Digital (SEIDIGI) do Ministério da Saúde e o Laboratório de Educação, Informação e Comunicação em Saúde (LabECoS/UnB) traçaram um panorama dos dois anos do programa SUS Digital. Enquanto o governo celebra a marca de 100% de adesão de estados e municípios, especialistas alertam que a verdadeira transformação depende de soberania tecnológica e combate à desinformação.
O Salto da Infraestrutura
A secretária Ana Estela Haddad destacou, nas páginas do Observatório, que o SUS Digital não é apenas uma diretriz, mas uma realidade orçamentária: R$ 464 milhões já foram destinados para diagnósticos e planos de ação locais. Entre os marcos, a consolidação da Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), que atingiu 4,3 bilhões de registros, posiciona o Brasil como detentor de um dos maiores data lakes públicos de saúde do mundo. “O aplicativo Meu SUS Digital já é o canal de comunicação direta com o cidadão, com mais de 69 milhões de downloads”, ressaltou Haddad ao OAPS. A secretária pontuou ainda o uso de tecnologias como energia fotovoltaica e satélites para levar conectividade a 1.700 unidades básicas de saúde em áreas remotas e indígenas.
A Crítica Acadêmica: Informação como Cuidado
Por outro lado, a participação de Ana Valéria Mendonça, coordenadora do LabECoS e professora da UnB, trouxe ao debate a dimensão humana e ética da digitalização. Para a pesquisadora, a saúde digital corre o risco de se tornar apenas uma “casca tecnológica” se não houver um investimento pesado em letramento e mediação do conhecimento.
“A consolidação da saúde digital não pode ser compreendida apenas como incorporação tecnológica, mas como parte de um campo de gestão da informação e comunicação pública da ciência”, defendeu Mendonça em sua
contribuição ao Observatório.
A coordenadora do LabECoS alertou para o perigo da “vigilância algorítmica” e da dependência das Big Techs. Segundo ela, o enfrentamento à desinformação deve ser parte central da agenda, transformando as plataformas do SUS em infraestruturas que garantam a integridade da informação científica entregue ao cidadão.
Formação e Soberania
O debate no OAPS também ecoou as vozes do CNPq e da RedeSist, reforçando que a transformação digital é, antes de tudo, um ato político. A defesa de uma Inteligência Artificial Soberana e a formação de 1.200 especialistas em saúde digital (em parceria com UFBA e UFMA) surgem como estratégias para que o SUS não apenas consuma tecnologia, mas produza soluções adaptadas à diversidade brasileira.
Ao final, o consenso entre gestores e academia é claro: a tecnologia é o meio, mas o fim deve ser a redução das iniquidades históricas do país, garantindo que o acesso digital se traduza, efetivamente, em equidade na ponta do sistema.
A publicação completa pode ser acessada em:
Ano 12 • Edição nº 63 • Janeiro/Fevereiro
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