Atual gestora do Hospital Universitário de Brasília (HUB/UnB/Ebserh) alcança o nível mais alto da carreira docente
A professora doutora Maria Fátima de Sousa realizou, nesta sexta-feira (21), sua defesa de memorial para o título de Professora Titular do Departamento de Saúde Coletiva da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade de Brasília (FS/UnB). O evento aconteceu no Auditório 2 da FS/UnB e foi transmitido ao vivo pelo canal de YouTube do Laboratório ECoS.
A classe de Professor Titular representa o nível mais avançado da carreira no magistério superior, conforme determina a Lei n° 12.863/2013. Para pleitear a promoção a essa classe, o docente precisa antes ter alcançado o nível de Professor Associado e passar por etapas de avaliação; a última delas consiste em apresentar a uma banca a defesa de um memorial, que resume sua trajetória acadêmica e profissional.
A banca examinadora foi composta pelas professoras Maria Cristina Soares Rodrigues (UnB), Cleide Rejane Damaso de Araújo (UFPB), Donizete Vago Daher (UFF), Girlene Alves da Silva (UFJF), Dirce Bellezi Guilhem (UnB) e Flávia Regina Souza Ramos (UFSC). Todas mulheres e, em sua maioria, nordestinas.
Girlene Alves, que também é reitora da Universidade Federal de Juiz de Fora, atribuiu a escolha das examinadoras à semelhança em suas trajetórias. “Em um momento como esse, as histórias e os currículos se aproximam. A professora Fátima trouxe para a banca muito mais do que acadêmicas; trouxe mulheres que, em suas caminhadas, tiveram que romper muitas barreiras”, avaliou.
Ao iniciar a defesa, Fátima Sousa lembrou de sua origem humilde. Natural de São José da Lagoa Tapada (PB), ela é filha de uma empregada doméstica e um operário da construção civil. Em 1967, seu pai veio para Brasília ajudar a erguer a capital federal. Em homenagem a ele, Sousa relembrou versos da música “Cidadão”, do poeta baiano Lúcio Barbosa: “Tá vendo aquele edifício, moço? / Ajudei a levantar”. Ao falar da mãe, não conteve a emoção. “Dona Chiquinha vendia coentro para que eu pudesse um dia chegar aqui”, destacou.
Fátima deu início aos estudos em Sousa (PB), no Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, e foi alfabetizada tardiamente, aos 12 anos. No início da década de 1980, foi uma das criadoras de um colégio experimental, destinado a alfabetizar crianças que, assim como ela, tinham carência no acesso à educação regular. “Eu aprendi a pedagogia do oprimido nessa escola”, disse Sousa, em alusão à obra do educador Paulo Freire.
Fátima Sousa iniciou a carreira docente na Faculdade da Ceilândia (FCE), em 2008, contribuindo para a criação do Projeto Político-Pedagógico (PPP) do campus. Na apresentação, destacou ter sido paraninfa da primeira turma do curso de Saúde Coletiva de Ceilândia. Ao longo de sua trajetória nas Ciências da Saúde, ministrou 119 disciplinas, concluiu 139 orientações e realizou 181 participações em bancas, da graduação ao doutorado.
Ela também mostrou aos presentes sua medalha Oswaldo Cruz — condecoração concedida a pessoas ou instituições que contribuem para a saúde pública no Brasil. Em 2018, recusou-se a receber a honraria do então presidente Michel Temer (MDB).
Ela encerrou o memorial com uma reflexão sobre a luta das mulheres no mundo da política, da ciência e da educação em saúde. “Mulheres frequentemente se deparam com preconceitos que as desencorajam a seguir carreiras em áreas tradicionalmente dominadas por homens. Na ciência, essa disparidade de gênero é evidente. Não temos outra escolha a não ser produzir, produzir e produzir para dizer que somos o topo da ciência”, afirmou.
A defesa do memorial durou pouco menos de uma hora. Conforme dito por ela, “não é fácil sintetizar uma produção que dura quase três décadas”.
Depoimentos
Colega de longa data de Fátima Sousa, o médico Halim Antonio Girade viajou para Brasília apenas para viver este momento ao lado da amiga. Girade usa o adjetivo “indignada” para defini-la. “Onde a Dra. Fátima esteve, ela assumiu papel de liderança. E o motivo é a indignação dela com os problemas do povo brasileiro. Essa indignação dava força para ela enfrentar as desigualdades”, refletiu.
A professora doutora Maria da Glória Lima, da FS/UnB, destacou a importância de Fátima para a valorização de projetos de extensão. “Nós implantamos o colegiado de extensão e trouxemos a comunidade para dentro da universidade”, relembrou.
Lucy Marina de Souza Oliveira, graduanda de Saúde Coletiva, considera que Fátima “acolhe os alunos tal qual uma mãe acolhe os filhos”.
Cleide Rejane Damaso de Araújo, integrante da banca examinadora, descreveu a promoção da colega à classe de Professora Titular como uma “coroação da vida acadêmica”. “A UnB hoje é privilegiada em ter uma professora como Maria Fátima de Sousa”, declarou.
Trajetória acadêmica e profissional
Maria Fátima de Sousa é graduada em Enfermagem pela Universidade Federal da Paraíba (1987), com especialização em Residência em Medicina Preventiva e Social na mesma universidade (1990). Ainda pela UFPB, fez mestrado em Ciências Sociais (1994). É doutora em Ciências da Saúde pela Universidade de Brasília (2007). Tem pós-doutorado na Universidade do Quebec em Montreal (2015) e na Universidade Nova de Lisboa (2023).
Foi coordenadora dos Agentes Comunitários de Saúde (ACS) na Paraíba e vice-presidenta da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).
Em 2008, entrou para o corpo docente da Universidade de Brasília (UnB) e, em 2014, recebeu da UFPB o título de Doutora Honoris Causa.
Em maio de 2024, por iniciativa da deputada e colega de profissão Dayse Amarilio (PSB), Sousa recebeu o Título de Cidadã Honorária de Brasília. Ela foi a primeira enfermeira a receber a honra. O evento contou com a presença da deputada federal Luiza Erundina (PSOL/SP), que destacou a importância da concessão do título.
No mesmo ano, Fátima esteve à frente da chapa A UnB que Queremos, como candidata à reitoria da UnB, ao lado do candidato a vice-reitor Paulo Celso, professor da Faculdade de Tecnologia (FT).
Em 2025, Fátima de Sousa se tornou gestora do Hospital Universitário de Brasília (HUB/UnB/Ebserh). A cerimônia de posse ocorreu em fevereiro, no auditório 1 do HUB, Asa Norte.
Nas redes sociais, ela divulga seu trabalho em prol da educação e do Sistema Único de Saúde (SUS).
Igor Borges
Supervisão: Fernanda Vasques