Hanseníase: entre o avanço do tratamento e o desafio da desinformação no Brasil

Há quem pense que a hanseníase é uma doença que ficou no passado, porém os dados mostram que ela ainda é muito presente nos dias de hoje. Segundo a Organização Mundial da Saúde, 182.815 novos casos de hanseníase foram notificados no mundo em 2023. Desse total, 13,6% ocorreram nas Américas, e mais de 90% desses registros estão concentrados em um único país: o Brasil. Isso representa 22.773 casos. Com esses números, o país ocupa a segunda posição no ranking mundial de ocorrências da doença, atrás apenas da Índia.

A hanseníase é uma doença endêmica, ou seja, ocorre de forma constante em determinada região ou população, fazendo parte da realidade local. De acordo com dados do Ministério da Saúde, os estados mais afetados são Mato Grosso, com 4.276 casos registrados em 2025, Maranhão, com 1.758, e Bahia, com 1.748. Somados, esses estados contabilizam 7.782 casos. Apesar de estudos e campanhas informativas sobre a hanseníase, ainda persiste a crença equivocada de que a transmissão ocorre pelo toque ocasional com alguém diagnosticado. Na realidade, a doença é transmitida pelas vias aéreas superiores — por meio da fala, espirros e tosse — e somente a partir da convivência frequente e contínua com uma pessoa não tratada, especialmente em ambientes domiciliares.

A partir do momento em que o tratamento é iniciado, o indivíduo deixa de transmitir a doença. Por isso, a demora no diagnóstico se torna um fator que contribui para a manutenção da cadeia de transmissão. Além disso, as condições socioeconômicas também influenciam na propagação da hanseníase, que é mais comum em regiões pobres e periféricas, onde a população enfrenta maior dificuldade de acesso à informação, à educação e aos serviços de saúde.

A médica dermatologista e diretora da ala de tratamento de hanseníase do Hospital Universitário de Brasília, Jorgeth Motta, explica que o tratamento da doença é a Poliquimioterapia, conhecida como PQT. O método consiste no uso combinado de antibióticos para eliminar a bactéria causadora da hanseníase, o Mycobacterium leprae. Segundo a especialista, a utilização de mais de um medicamento é fundamental para evitar a resistência bacteriana e garantir a cura do paciente. “É um tratamento que cura o paciente, então é muito importante procurar o médico dermatologista para fazer o tratamento o mais precocemente possível”, afirma. “Quanto mais cedo se faz o diagnóstico e se inicia o tratamento, maior a chance de cura sem sequelas. Quando o diagnóstico é tardio, a doença pode causar diversas sequelas, principalmente neurológicas”, completa.

O Hospital Universitário de Brasília (HUB) é o principal centro de tratamento para hanseníase no Distrito Federal. Luiz (nome fictício) é paciente da unidade há seis anos, quando recebeu o diagnóstico aos 34 anos. No caso dele, os primeiros sinais apareceram como manchas diferentes na pele. Após oito meses de exames e idas e vindas aos serviços de saúde, veio a confirmação. “Não vou mentir não, eu fiquei um pouco preocupado”, relatou.

Mesmo sabendo que, desde o início do tratamento, não transmite mais a doença, Luiz ainda enfrenta preconceito e estigmas no dia a dia. “Geralmente, pra pegar um baú mesmo, o pessoal fica olhando, com medo de encostar na gente. Aí a gente tem que abaixar a cabeça, ficar na nossa… vai fazer o quê?”, desabafa.

Dona Rosa (nome fictício), de 52 anos, também é paciente do HUB. No caso dela, a hanseníase não se manifestou por meio de manchas na pele, mas por sintomas articulares. “Eu sentia muita dor e sensibilidade, não consigo nem fechar as mãos. Hoje, só ando de tênis, porque qualquer coisinha eu tropeço se estiver de sandália”, conta. Quando a doença se apresenta dessa forma, é comum que os sintomas sejam confundidos com os de outras enfermidades reumatológicas, como aconteceu com Rosa. “Eu já fazia tratamento com reumatologista por causa da dor nas mãos. Aí fui fazendo exame, fazendo exame, até que vim parar aqui”, relata.

Para ela, o preconceito também marcou a trajetória com a doença, inclusive dentro do ambiente hospitalar. “Eu estava esperando o tratamento quando colocaram uma enfermeira — nem sei se era enfermeira, mas parecia — para ficar comigo”, relembra. “Eu estava sentada no banco esperando e ela sentou bem na outra ponta, sempre se afastando, indo pro lado, me olhando de canto, sabe?”, conta.

Rosa era auxiliar de serviços gerais e, após o diagnóstico, não conseguiu retornar ao trabalho. “Eu ainda sinto dores, mas consigo fazer tudo devagarinho, no meu tempo. Mas isso em casa, né? Não tem trabalho que dê pra fazer assim.” Para Luiz, a situação foi semelhante. Devido às complicações da hanseníase, ele não consegue mais exercer as mesmas funções de antes. “Eu trabalhava de pedreiro, mas por causa do sol não posso mais trabalhar igual antes. Também fui cozinheiro, mas por causa da doença eu me queimava e não sentia. Aí não tem como continuar”, relata.

Os relatos de Luiz e Rosa evidenciam que, além de ser uma questão de saúde pública, a hanseníase ainda carrega um forte estigma social, capaz de impactar profundamente a vida pessoal, profissional e emocional dos pacientes. Combater a doença passa não apenas pelo diagnóstico precoce e pelo acesso ao tratamento, mas também pela informação de qualidade, pelo enfrentamento do preconceito e pelo reconhecimento de que a hanseníase tem cura — e que quem está em tratamento não oferece risco de transmissão.

É por histórias como a de Luiz e Rosa que a comunicação em saúde deve assumir um papel central no enfrentamento da hanseníase. Informar de forma clara, acessível e baseada em evidências científicas é fundamental para desconstruir mitos, reduzir o estigma e incentivar a busca por diagnóstico e tratamento precoces. A falta de informação correta não apenas perpetua o medo e o preconceito, como também contribui para o atraso no cuidado, ampliando o risco de sequelas e de transmissão da doença. Comunicar bem é, portanto, uma estratégia de cuidado, prevenção e garantia de direitos.

Assim atua o Lab ECoS, com foco na tradução do conhecimento em saúde e na gestão da informação, aproximando o saber científico da população. Por meio da produção de conteúdos acessíveis, ações educativas e estratégias de comunicação voltadas para diferentes públicos, o ECoS contribui para o enfrentamento da desinformação, especialmente em temas sensíveis como as doenças negligenciadas. Ao transformar dados técnicos em informação compreensível e socialmente relevante, o laboratório fortalece a educação em saúde, promove o acesso à informação de qualidade e contribui para uma sociedade mais informada, consciente e menos marcada pelo preconceito.

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